Gente grande pode brincar?
Ser gente grande às vezes é chato. Temos que nos dobrar e desdobrar para que possamos arcar com nossos compromissos, nossas obrigações. Não podemos simplesmente correr para debaixo da mesa e fechar os olhos pedindo queo mau tempo passe logo. Não podemos nos dar ao luxo de nos ater ao misticismo e de achar que, como num passe de mágica, nossos pensamentos irão resolver os problemas que nos assolam.
Apesar de ter que peitar problemas, destrinchar soluções de onde menos eseramos, fuçar alegrias efêmeras, sobra-nos tempo SIM para brincar de ser criança! E são essas brincadeiras que fazem com que tenhamos mais energia e boas expectativas com nosso dia-a-dia. É sendo criança de novo que podemos nos dar ao luxo de sonhar de olhos abertos, de correr olhando para cima, de cantar desafinado, de pular sem parar, de rolar no chão, de viver intensamente através do corpo e da mente.
O adulto DEVE brincar…
Adultização e amargamento…
Começo falando sobre o processo de “amargamento” que nós passamos quando transitamos da vida de criança e de adolescente para a vida adulta. Adultos não podem conversar alto, exceto quando bebem cerveja ou quando um time de futebol ganha em pleno domingo, justo quando a família está toda reunida e disputando uma galinhada quase que aos tapas.
O adulto tem que dormir cedo e acordar cedo. Tem que correr atrás do dinhero para sua subsistência – senão da sobrevivência. Ser adulto implica em sentirmos nos nossos corpos o cansaço, a falta de ânimo, o sorriso sem graça – socialmente apelidade de “politicamente correto”…
Nesse processo de “adultização” passamos por estágios em que nossos quereres são postos de lado, nossas vontades são irrelevadas pelos demais, esses nos ensinam ainda a fazermos o mesmo conosco mesmo. É justo nesse processo que temos que apreender e aceitar regras do manual “Como ser um adulto” mesmo que, talvez, esse manual nem mesmo exista.
Somos levados a nos negar a todo instante, a desgostar do que gostamos. Não há mais espaço para o videogame ao longo das tardes de sábado. Não há mais espaço para brincar com aquele amigo que ninguém podia ver, com os cachorros na rua, até mesmo brincar de qualquer coisa na rua não é mais permitido, segundo o manual “Como ser um adulto”. Nos amargamos conosco mesmo, tomamos desgosto das coisas que achávamos gostosas.
O adulto tem uma criança presa dentrodo corpo mesmo que não fora esse mesmo adulto que prendera essa criança. Sabe-se que vontades suprimidas, reprimidas e sublimadas acabam trazendo malefícios enormes para nossa psique. Começamos a nos configurar a partir da nossa própria desconfiguração: chegamos ao ponto em que nos perguntamos “quem sou eu? E o que eu quero mesmo?”.
Potencialidades do brincar…
Às vezes desconsideramos as potencialidades propostas pelo brincar e pelo jogar. Movimentamos nossas energias internas enquanto produzimos brincadeiras, enquanto brincamos. A dinâmica do jogo e da brincadeira nos faz retornar à uma “velha” conhecida – e já cantada por uns tais “Tribalistas” – INFÂNCIA.
Certo que não podemos retornar na nossa infância como muitos podem almejar, mas podemos reerguer fatos que nos rememorem essa. A infância é a nossa fase mais pura, é quando começamos a nos firmar nos mundo, quando começamos a perceber esse mundo e nos perceber no meio de tudo isso. Quem nunca fechou os olhos e se imaginou mergulhado em uma imensidão tão vasta que nos levava a viagar de olhos abertos, sonhar de braços abertos, tentar alcançar estrelas, tentar ter tudo e usufruir desse TUDO, como fez o Fausto de Goethe.
O desejo pela imensidão e pelas coisas mais simples movimentava nosso viver na infância. É brincando que podemos reviver essas sensações que trazem fragmentos gostosos dessa nossa primeira fase de vida.
Faça a escolha…
Cabe a nós mesmos escolher como lidar com o viver: podemos nos amargar e encrustar em nossas pseudo-defesas que apenas fazem com que neguemos a nós mesmos; ou podemos nos adocicar e tratar a busca pela felicidade plena de maneira mais séria, fazer dessa busca um objetivo de vida e o combustível para nosso motor vital.
Brinquemos…
Proponho a todos os adultos que parem de viver essa vida amarga na qual os quereres essenciais para a satisfação plena, segundo dizeres e regras para os adultos, devem ser excluídos do no cotidiano.
Reviver e rememorar a infância pode trazer benefícios para nosso bem-estar. A brincadeira reorganiza nossas energias psíquicas e nosso corpo passa a se irrigar de alegria e vida.
A brincadeira permite a reinvenção do homem.
Reinvente-se…
brunacelia
06/07/2009 at 14:14
É engraçado isso, né… com o passar do tempo vamos envelhecendo, emburrecendo e esquecendo de ser felizes… a criança de nós vai morrendo. Aí a gente envelhece e morre. É fato. Quantas pessoas morreram tristes?
Muitas.
Gostei do texto… ele é longo, mas vc utiliza um recurso jornalístico de quebrar o texto em blocos, o que nos mantêm até o fim.. parabéns! Nem precisou estudar 4 anos para aprender a escrever…. Jornalista! =)